Garota eu vou pra Califórnia, esta é a música que muitas mulheres cantam quando não conseguem conter a alegria de estar indo acompanhar o marido que recebeu uma proposta de trabalho irrecusável no Vale do Silício.  O “mas” vem depois de um tempo onde ter um visto H4 dá a impressão de estar trancada dentro de uma jaula.

Visto H4 e a realidade das mulheres do Vale do Silício

Visto H4
Visto H4

O que é o visto H4?

Para quem não é familiar com vistos, o visto H4 é para os acompanhantes do visto H1B. Salvas algumas exceções, o cenário mais comum deste visto é: O marido é um engenheiro de software, recebe uma proposta de trabalho com um salário super atrativo no Vale do Silício, a empresa patrocina o visto de trabalho dele – o H1B, enquanto sua esposa e filhos recebem o visto de acompanhante – o H4, o qual permite que eles possam estudar, APENAS.

 O salário e os benefícios eram bons demais para recusar. Sempre quisemos morar fora vai ser experiência pessoal e profissional incrível. Logo estarei trabalhando também. Diz a H4.

Visto H4 – Fase 1 – Califórnia Dream

Quando as famílias mudam é uma alegria imensa, é a fase da descoberta. O marido está lá trabalhando naquela empresa dos sonhos, enquanto a mulher decora a casa, vai pro cursinho de inglês, vai na academia, faz compras no shopping, trabalhos voluntários, faz café com pão de queijo com as novas amigas. O casal viaja pela Highway 1, explora os pontos turísticos de San Francisco, frequenta os melhores restaurantes.

Visto H4 – Fase 2 – Do lar, nem pensar!

Depois de um tempo, de um lado tem um grupo de homens com seus laptops falando sobre uma nova tecnologia enquanto do outro estão suas mulheres, algumas madames, outras donas de casa, algumas dedicando seu tempo pra tentar algo novo – hora de fazer o artesanato que gosta, de se matricular no curso de fotografia que sempre teve vontade. Outras felizes por não ter nada pra fazer, adoram a possibilidade de utilizar este tempo pra si mesma, pra se descobrir. MAS têm as que começam a surtar com a situação. Esta é a realidade de milhares de estrangeiras que decidiram apoiar a carreira profissional de seus maridos nos Estados Unidos.

Eu me sinto culpada, muita culpa por ter esse estilo de vida, mesmo tendo uma vida luxuosa não é o que esperava viver por aqui. Diz a H4.

Visto H4 – Fase 3 – O EAD que nunca chega!

O maior dos desafios é a tal da permissão de trabalho. Resumindo quem tem o H4 pode pedir a autorização para trabalhar: o EAD – Employment Work Authorization, somente quando uma determinada etapa no Green card – a petição I-140 é aprovada e cada empresa tem uma política para aplicar pro Green Card. Muitas companhias só dão entrada quando o funcionário completa 1 ano, por exemplo. Se o portador do H1B trocar de empresa o processo é cancelado. Enfim, o Green Card pode levar um bom tempo. O mesmo com o processo em andamento o prazo é diferente de acordo com a nacionalidade de quem está aplicando e o nível de escolaridade. A preferência é sempre de quem tem a maior qualificação.

Para se ter uma ideia em 2015, foram concedidos 125 mil vistos H4, destes, 90% foram para mulheres com passaportes indianos. Enquanto seus maridos são engenheiros em empresas renomadas do Vale, suas esposas tem que aguardar uma média de 9 anos para terem seus Green Cards e se “tornarem livres” para exercer suas profissões. Nem mesmo o Social Security, que é uma espécie de CPF americano elas podem ter durante este período, ficam completamente dependentes dos maridos.

No caso das brasileiras o prazo de espera é em média 2 anos, com exceção dos casos de prioridade no processo, alguém com Phd por exemplo, entra nunca cota diferenciada. Assim como pode demorar muito mais dependendo do número de aplicações. O fato é que a impressão é que agora falta muito pouco, mas o dia que o EAD vai chegar, parece que não chega nunca.

Visto H4 – Fase 4 – Hora de dar um jeito na vida

Esta pausa estendida na carreira é vista por muitas mulheres como uma oportunidade, outras chamam de sacanagem. As pessoas que têm tem visto na maioria das vezes são articuladas, formadas e com uma excelente experiência profissional. No entanto, a lei da imigração reduz as mesmas a esposas ou donas de casa. Elas não podem trabalhar e serem remuneradas nos Estados Unidos.

Eu estava muito focada na minha carreira, era a minha identidade. Depois de vir pro Vale comecei a fazer perguntas como: quem sou eu? No que que eu sou boa? Quais são os meus hobbies? Diz a H4.

Com o passar do tempo não faz mais sentido ir pra uma escola cheia de estudantes internacionais – aqueles asiáticos, falamos muito melhor que eles! A saudade da família e dos amigos vai pesando, hoje é dia das mães – como eu eu queria estar lá! O aniver da fulana e nós sozinhos aqui, como vai ser? Os “Mas” começam a procriar, “Mas lá” eu podia trabalhar, “mas lá” minha família estava por perto, “mas lá” eu tinha o meu dinheiro. “Mas” eu trabalhava na área x e aqui não tem nada pra mim, “mas” eu era da área da saúde e tenho que estudar mais 4 anos pra convalidar meus diploma, “Mas” eu era da comunicação e em inglês é muito mais difícil. Mas afinal, o que fazer da vida agora? Começam a sentir uma sensação de inutilidade, solidão, tédio, frustração com a dependência financeira.

Você pode estar dizendo, dá um jeito, trabalha por debaixo dos panos e algumas realmente fazem isso. No entanto, a maioria não quer correr o risco de ser deportada trabalhando ilegal ou por em risco o Green Card – afinal, o H1B é um visto difícil e agora está o Green card está “tão próximo”. Muitas optam pela maternidade – afinal 2 anos no mínimo aguardando é o momento ideal, pra um casal com relacionamento estável iniciar uma nova família. É um festival de barrigas por todos os cantos, seguidos por chá de fraldas e playdates. Outras transformam seus dons culinários em Business. Coxinha, brigadeiro, feijoada e outras delícias são vendidas informalmente por estas mulheres. Tem inclusive as que se especializaram em servir a própria comunidade: psicóloga brasileira que só atende brasileiras. E claro, tem as blogueiras e empreendedoras digitais, muitas delas. O fato é que é preciso aceitar que cada escolha é uma renúncia e ou você reclama e arruma desculpas ou dá um jeito e se vira do jeito que pode.

Leia também: Como funciona a loteria do visto H1B

Visto H4 – Que injustiça

Há também as mulheres com o visto L2, o L2 é o acompanhante do L1, que assim como H4 – o visto não é exclusivo para mulheres e sim para cônjuge, independente do sexo e filhos. No caso do L, da mesma forma geralmente o homem vem transferido por uma empresa que atua em ambos os países – Brasil e Estados Unidos e traz o restante da família. No entanto, estas mulheres portadoras do visto L2 têm a permissão para trabalhar e estudar.  Muitas vezes o que acontece é que elas têm permissão, mas não têm condições de trabalhar! Algumas porque não dominam o idioma, outras porque preferem ou precisam se dedicar aos filhos, têm ainda as que preferem fazer um curso em uma área diferente da sua formação, entre outras razões. O fato é que assim que ela chega nos Estados, pode aplicar para o EAD e no prazo de 3 meses recebe o documento e pode procurar por emprego. Mas um motivo pras H4 se revoltarem, afinal se a situação é praticamente a mesma, acompanhar o “esposo” que vem trabalhar, porque somente as H4 precisam ficar limitadas profissionalmente?

Leia também: Visto de trabalho L1

Depois de verificar que muitos destes imigrantes com visto H estavam retornando aos seus países de origem devido a limitação das esposas, o governo dos Estados Unidos mudou a lei. Faz apenas um ano que é possível aplicar para o EAD após uma das etapas do Green Card. Até então era preciso aguardar a aprovação final do documento para ter a autorização de trabalho. Como muitas nesta caso tem ao menos a esperança que em breve o dia chega e poderão retornar ao mercado de trabalho, os casais acabam permanecendo no país.

Você tem um H4? O que pensa desta situação? Já conseguiu seu EAD com este visto? Compartilhe com a gente!

Inspirada por uma das lições mais valiosas do Vale do Silício: dê o seu melhor que a vida retribui, resolveu juntar sua experiência no segmento educação internacional, seu amor por viagens e seu entusiamo por novos negócios criando o blog para compartilhar um pouco de tudo que sabe e aprende todos os dias.